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A genética do Bulldog Inglês

*Texto reproduzido originalmente no site Genética Canina


Antes de adquirir seu filhote, não deixe de se informar sobre as maneiras mais corretas de criação para a raça que está interessado, no que diz respeito à saúde do cão. Desta forma, além de estimular a criação responsável, você terá mais chance de adquirir um filhote saudável.

PROBLEMAS DE COLUNA


Descrição da coluna do bulldog inglês e problemas possíveis:

Você ouvirá de criadores que todo Bulldog Inglês tem problema de coluna, e isto infelizmente é praticamente verdade. Esta raça foi modificada ao longo das últimas décadas para ter o comprimento do corpo e da cauda encurtados, o que originou várias deformações de vértebras, sendo a mais comum denominada de "hemivértebra". A hemivértebra é uma mal formação de uma ou mais vértebras que ocorre durante o desenvolvimento dos filhotes, especialmente de raças braquicefálicas (com o focinho achatado). A literatura científica relata uma prevalência de mais de 80% deste problema em Bulldog Inglês. Se chama hemivértebra toda a vértebra que tiver algum dos seus lados malformados, e que se apresente formato de cunha. Já quando a vértebra não tem sua parte do meio, também é uma mal formação chamada de "vértebra em borboleta".

Um cão pode viver bem durante a vida toda com estes problemas de coluna, mas quanto mais vértebras mal formadas ele tiver, maior a sua chance de ter alguma lesão da medula espinhal, já que as vértebras protegem a medula. Lesões de coluna podem ser desde leves e reversíveis, até bastante sérias e levar os animais a perder completamente movimentos de partes do corpo, como as patas traseiras por exemplo. Por isso cães desta raça devem ser impedidos ao máximo de realizar movimentos bruscos, como pular nos tutores, subir ou descer escadas, e pular de locais altos.

Somente um Médico Veterinário, principalmente especialista em ortopedia, pode realizar a avaliação da coluna de um cão, através de exames físicos e de imagem (RX) e emitir um laudo com relação à gravidade ou não do problema, afirmando se o mesmo está apto para a reprodução.


O que criador responsável deve avaliar ao reproduzir um casal?

Um erro muito comum é o de se pensar que como quase todo Buldogue Francês tem problema de coluna, "não tem o que fazer". No entanto, isto não está correto, uma vez que se nenhum animal tiver sua coluna avaliada, o criador poderá estar somando problemas do macho e da fêmea, e agravando o problema na ninhada. Já foi comprovado que malformações de vértebra tem influência de aproximadamente 58% da genética e, portanto, o criador responsável deve avaliar seus animais.

É importante lembrar que esta avaliação é sugerida não para retirar da reprodução qualquer animal que tiver uma ou duas hemivértebras por exemplo. Infelizmente, isto é impossível para esta raça, pois a levaria à extinção. A avaliação prévia da coluna deve ocorrer para:

  1. Não reproduzir animais com problemas muito sérios de coluna (diversas hemivértebras e vértebras em borboleta): este problema sério teria uma chance de ser passado em boa parte para a prole. Isto é importante especialmente para fêmeas, que além de tudo ainda têm uma sobrecarga na coluna durante a gravidez.

  2. Não reproduzir entre si dois animais com problemas mais leves de coluna (algumas hemivértebras, por exemplo): devido à comprovado influência genética sobre esta características, ao juntar dois animais com problemas não tão severos, existiria uma boa chance do problema ser agravado na prole.

3) escolher cruzamentos adequados: se uma fêmea, por exemplo, tem algumas hemivértebras, o criador deve fazer o possível para reproduzi-la com um acho que tenha o menor número possível de malformações - idealmente menos que a fêmea.


Mas lembre-se: não existe nenhuma garantia que cães que passaram por esta avaliação produzirão filhotes com colunas adequadas. No entanto, criar desta maneira irá, a longo prazo, diminuir gradativamente o problema.


A DISPLASIA COXOFEMORAL

Descrição da displasia coxofemoral: A displasia coxofemoral é definida como um desenvolvimento anormal da articulação do quadril, uma doença multifatorial, desencadeada por uma predisposição genética. É uma doença progressiva (piora com o tempo) e que leva à alteração articular conhecida como osteoartrose. Os cães podem apresentar sinais clínicos desde novos (com alguns meses), ou somente mais tarde quando já são idosos. Os sinais dependem do grau da doença e da resistência à dor de cada cão. Os mais fáceis de serem observados são dificuldade em se levantar, mudança na postura devido a dor (sentar com os joelhos para dentro, afastar ou juntar os pés quando em estação), incapacidade de ficar de pé somente nas patas de trás, deixar de fazer atividades que antes eram comum (como subir na cama), claudicação após o exercício, andar cambaleante (rebolar), entre outros.


Diagnóstico da displasia coxofemoral: A avaliação é feita com radiografias da articulação coxofemoral (quadril) com sedação, também conhecido por "laudo de displasia", que deve ser feita a partir dos 2 anos de idade. É possível realizar uma avaliação prévia aos 18 meses, pois se houver a doença será possível perceber antes mesmo da idade de 24 meses onde se emite o laudo definitivo. No entanto, para a correta emissão de laudo, é imprescindível que seja realizado o laudo definitivo na idade correta. Após a avaliação radiográfica, no Brasil, o veterinário especializado emite um laudo com a classificação do animal, que varia entre excelente /boa (A), razoável/limítrofe (B) (deve-se realizar outra radiografia em 6 meses) para animais sadios e, para animais displásicos leve (C), moderada (D) ou grave (E).


Veja alguns dados da Associação de Ortopedia Animal (OFA), dos Estados Unidos, sobre cruzamentos e resultados nas ninhadas:

A tabela* ao lado demonstra dados de um estudo da OFA (EUA), que avaliou

resultados de RX de 444.451 cães de diversas raças. Esta tabela demonstra a proporção de animais com displasia a partir de cada tipo de cruzamento:


*tabela adaptada da 5ª edição do texto “The use of health databases and selection breeding – a guide for dog and cat breeders and ouwners”, de Greg Keller, DVM, MS, DACVR (Orthopedic Foundation for Animals, Inc.), disponível aqui.


A DISPLASIA DE COTOVELO


Descrição da displasia de cotovelo:

A displasia de cotovelo é uma doença definida como multifatorial, em que diversos fatores hereditários, que ocorrem de maneira combinada, contribuem para o desenvolvimento da forma anormal da articulação do cotovelo. Três problemas podem estar presentes: fragmentação do processo coronoide medial da ulna, osteocondrite do côndilo umeral medial e não-união do processo ancôneo. Eles podem estar sozinhos ou associados. Entre os sinais clínicos mais comuns, está a claudicação, que pode iniciar antes de 1 ano de idade e ser agravada por fatores ambientais. O animal apresenta dor, evita movimentar o cotovelo, pode ter perda da amplitude da articulação, tem alterações no modo de parar e se movimentar e, a longo prazo, leva à degeneração da articulação.


Diagnóstico da displasia de cotovelo:

A avaliação é feita com radiografias da articulação do cotovelo, que deve ser feita a partir dos 2 anos de idade para laudo de animal negativo, não sendo necessária a sedação para essa avaliação radiográfica. Após a avaliação, no Brasil, o veterinário especializado emite um laudo com a classificação do animal, que pode variar normal para animais sem displasia e graus I, II ou III para animais doentes, dependendo da gravidade.

A tabela* ao lado demonstra dados de um estudo da OFA (EUA), que avaliou

resultados de RX de 51.340 cães de diversas raças. Esta tabela demonstra a proporção de animais com displasia a partir de cada tipo de cruzamento:



*tabela adaptada da 5ª edição do texto “The use of health databases and selection breeding – a guide for dog and cat breeders and ouwners”, de Greg Keller, DVM, MS, DACVR (Orthopedic Foundation for Animals, Inc.), disponível aqui.


A CISTINÚRIA


Descrição: A cistinúria é uma doença renal, onde o cão perde a capacidade de absorver uma substância chamada cistina. Animais com esta doença acumulam nos rins e secretam na urina cálculos de cistina. Cães afetados possuem uma diminuição da quantidade da urina, e a mesma pode apresentar sangue, e estão mais suscetíveis à infecções urinárias. Caso não seja diagnosticada e controlada com alimentação adequada, estes cães podem ter a perda completa da função renal. A cistinúria é uma doença recessiva, na qual cães podem ser portadores da mutação e nunca apresentar a doença, sendo chamados de ‘portadores assintomáticos’. No cruzamento de dois animais deste tipo, 25% dos filhotes nascem com catarata hereditária. Por ser uma doença recessiva, o cruzamento entre parentes aumenta muito a chance de nascimentos de animais doentes.


Diagnóstico: A doença é diagnosticada através de um exame de urina, realizado após a suspeita da doença devido aos sinais clínicos descritos acima. Além disto, exames de DNA podem ser utilizados como métodos adicionais e confirmatórios de diagnóstico.

A BRAQUICEFALIA EXCESSIVA

Descrição:

Cães braquicefálicos são conhecidos popularmente como “cães da cara achatada. O criador que não tem o cuidado necessário, produz alterações anatômicas altamente prejudiciais à saúde do animal, causando sérios problemas respiratórios, oculares e alimentares, podendo levar até a morte. A braquicefalia exagerada diminui o bem-estar animal e os condena a sentir dor, privação e grande possibilidade de abandono, visto que o cão que era moda, passa a ser uma fonte de problemas e gastos.

O formato dos ossos do crânio é determinado geneticamente e, assim, um cão braquicefálico herda esta característica de seus pais. Quando dois animais com braquicefalia excessiva são reproduzidos, existe uma grande chance de esta característica se somar na ninhada, provocando o nascimento de cães com sérios problemas. No exagero desta característica, provocado pelos criadores, podemos ver inúmeros outros problemas, que favorecem o aparecimento de diversas doenças.


Veja alguns dos problemas mais comuns associados a este formato de crânio exagerado, e leia mais sobre cada uma delas:


  • Ceratoconjuntivite seca: Devido a conformação do crânio, e ao exagero na característica de braquicefalia, os olhos tendem a ficar saltados (proeminentes) e assim não conseguem fechar totalmente, ocorrendo um ressecamento. Este ressecamento da córnea e da conjuntiva causado por uma diminuição da porção aquosa da lágrima é chamado de ceratoconjuntivite seca. É uma doença oftálmica progressiva que pode levar a cegueira. Está associada com inflamação, secreção ocular e dor. Inicialmente, os sinais são muito semelhantes aos de uma conjuntivite (olho vermelho, secreção ocular, coceira), o que muitas vezes retarda o diagnóstico e o tratamento correto. Mais tarde a córnea começa a ficar pigmentada (manchas escuras) levando o animal à cegueira. O diagnóstico é estabelecido através do exame oftálmico realizado por um veterinário (preferencialmente especializado em oftalmologia veterinária) e das informações sobre o histórico do paciente. Geralmente a doença ocorre nos dois olhos, mas há casos em que apenas um olho está seco, principalmente em casos de trauma (batida na cabeça, acidente automobilístico).

  • Úlcera de córnea: A úlcera da córnea é um problema ocular comum e doloroso em cães, que pode levar a cicatrizes e /ou perfuração da córnea, causando cegueira. A conformação do crânio com focinho exageradamente achatado e os olhos arregalados é um fator de risco para ulceração da córnea, já que a probabilidade de um cão braquicefálico apresentar a doença é 20 vezes mais provável que os não braquicefálicos. O sinal clínico mais facilmente reconhecido pelos proprietários é a dor ocular, que é demonstrada pelo cão quando fica piscando muito ou nem consegue abrir o olho machucado. Outros sinais que normalmente acompanham a úlcera de córnea são lacrimejamento excessivo (parece que fica chorando de tanta produção de lágrima), coceira nos olhos, secreção ocular (as famosas “remelas”), vermelhidão em volta dos olhos e a córnea fica mais esbranquiçada. Normalmente, as úlceras de córnea são superficiais; porém, alguns fatores podem levar a um agravamento, tornando a lesão mais profunda e grave, com risco de perfuração. O diagnóstico da úlcera de córnea é baseado nos sinais clínicos, acompanhados de alguns exames específicos, que são realizados exclusivamente pelo médico veterinário.

  • Prolapso da terceira pálpebra: A terceira pálpebra é formada por uma cartilagem e coberta pela conjuntiva, fornecendo sustentabilidade ao conjunto ocular, na sua base, localiza-se uma glândula considerada como glândula lacrimal acessória, responsável por cerca de 30% a 40% da produção de lágrimas. O Prolapso da Glândula da Terceira Pálpebra, inicia com o aparecimento de uma massa oval rosada no canto interno dos olhos, podendo ser nos dois olhos (bilateral) ou em apenas um (unilateral), também é conhecida como Cherry eyes (Olhos de cereja). O grande problema é que ocorre a alteração da quantidade lacrimal que, nesta condição, encontra-se diminuída. A lágrima como sabemos, tem funções importantes sobre todo o metabolismo ocular, como nutrição e oxigenação das células da córnea, lubrificação e proteção da superfície corneana, bactericida, etc. A sua diminuição deve ser rapidamente contornada para que a função lacrimal eficiente seja restabelecida. Há risco de ulceração devido ao olho encontrar-se mais seco. O diagnóstico é visual e fácil, não necessitando auxilio de nenhum aparelho. A exposição da glândula gera uma inflamação, causando aumento de tamanho. O animal apresenta secreção mucosa, de coloração verde ou amarelada, muitas vezes confundida com pus, coceira local e leve incomodo. O veterinário deve ser consultado o mais rápido possível se o seu animal apresentar essa alteração.

  • Sindrome braquicefálica: As raças braquicefálicas são caracterizadas por apresentarem um crânio curto, sendo maior na largura quando comparado ao comprimento. Estes cães são caracterizados por uma forma craniana anormal, com pronunciada desarmonia estrutural. Devido a essa desarmonia, ocorrem alterações anatômicas, principalmente no aparelho respiratório superior, resultando em diminuição do fluxo de ar inalado, caracterizando a Síndrome Braquicefálica. Dentre as características que podem ser percebidas, a esteanose das narinas, isto é, a diminuição do tamanho da narina é a mais evidente. A maioria dos animais apresenta os primeiros sinais clínicos entre um e quatro anos de idade, que se caracterizam por respiração ruidosa, ronco, intolerância ao calor e ao exercício, engasgos, vômitos e escoamento da saliva para fora da boca. Agravando-se os sinais em temperaturas ambientais elevadas, exercícios ou estresse, podendo chegar a morte súbita.

  • Estenose de narina: O termo Esteanose de Narina, é utilizado para cães que possuem as narinas estreitas. A braquicefalia faz com que a abertura nasal seja estreita e pequena demais para o cão, dificultando a respiração do animal. Em casos mais graves pode ocorrer intervenção cirúrgica, mas não é uma condição totalmente reversível. O diagnóstico deve ser feito no exame físico, durante a avaliação do médico veterinário. Radiografias torácicas também devem ser analisadas para detectar anormalidades cardíacas ou pulmonares.

  • Palato mole alongado: O palato mole é a estrutura que separa a cavidade oral das passagens nasais. Nos cães braquicéfalicos essa estrutura fica solta na garganta, o que faz com que os cães produzam um som semelhante ao ronco. Na teoria, todos os cães que são afetados pela braquicefalia sofreriam com esse problema. Cães que ofegam demais ou latem muito podem acabar adquirindo um inchaço na garganta, o que pode acabar interferindo na respiração do animal. O diagnóstico é realizado através de exame físico, realizado por médico veterinário, Através de radiografia, é possível visualizar o alongamento de palato mole apenas quando ele está edemaciado, sendo um exame raramente requisitado para o diagnóstico.

  • Prognatismo grave: O prognatismo inferior (dentição inferior mais avançada que a dentição superior), é aceita nas características de algumas raças, contudo, o exagero desta característica ficando a dentição inferior a mostra é uma das falhas causadas pela braquicefalia excessiva, dificultando assim, muitas vezes até a forma do cão se alimentar.

  • Estresse por calor: Por possuírem todos esses problemas com suas vias aéreas, até mesmo o ato de ofegar no calor se torna ineficiente em cães que sofrem com a braquicefalia. Um cão normal, quando ofega no calor, faz com que o ar entre mais rapidamente, fazendo a saliva evaporar e diminuindo a temperatura do sangue que passa pela língua do cão, ajudando a manter a temperatura do cão sob controle em dias mais quentes. Por isso, é muito importante garantir que seu cão esteja sempre dentro do peso ideal e que não seja muito exposto ao calor em dias quentes.

Conheça mais sobre aconselhamento genético com a Fabiana Michelsen de Andrade no Genética Canina.



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